Domingo, Outubro 26, 2008

ORLY?

O homem, tão másculo, tão viril! Aprendeu a ler, escrever, faz relatórios mil. Muitos são sedentários, de esporte querem distância. Ao verem uma academia, de vômito, vem a ânsia. O homem inventou a roda, inventou o sorvete, inventou a moda. O homem constrói prédios de mais de 100 andares, dá aulas particulares, fabrica carros aos milhares. O homem aprendeu a usar sapato, a tirar retrato, não mais caga no mato. Toma banho de chuveiro, inventou o tal dinheiro, faz a barba no barbeiro. No calor, liga o ar, vai nadar, se refrescar. No frio, que arrepio, liga o aquecedor, pega um cobertor, abraça o amor. Pra paquerar, vai a um bar, badalar, vai flertar. As fêmeas é que disputam os machos, que ultimamente andam xoxos.

O homem adaptou-se muito bem a tantas modernidades que ele próprio inventou. Seu instinto de sobrevivência o leva a fazer concurso público, acasalar o leva a casar, seus maiores predadores hoje em dia são os credores, procriar inclui escola pra pagar. O pão de cada dia tem um preço que varia, depende de como andam as pernas da economia.

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Quinta-feira, Outubro 02, 2008

Munição

Quero apenas registrar minha grande admiração pela palavra "munição" e registrar que houveram inúmeras tentativas de relacioná-la de alguma forma com "Mussum", sem sucesso.

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Energia

Energia é uma coisa que todo mundo tem e que existe de várias formas. Tem essa das pessoas, tem a elétrica, a nuclear, a eólica, enfim. Mas é essa energia das pessoas é que me apavora um pouco.

Primeiro porque nunca a compreendi muito bem. É claro que posso diferenciar uma pessoa sonolenta de uma pessoa dita cheia de energia, assim como posso diferenciar uma pomba de um azulejo português, mas isso é muito claro. O problema é o mau uso desse termo.

As pessoas chegam nos programas de tevê, por exemplo, todas com as mesmíssimas caras de quem acabou de chegar da lua de mel com Johnny Depp, mas algumas merecem especial atenção dos apresentadores, que dizem: "Você tem uma energia ótima!".

Num programa como Big Brother, por exemplo, é muito comum ver os participantes dando as mãos para fazer uma "corrente de energia positiva". Ora, se são concorrentes, não existe corrente! Energia positiva de verdade, ali, é individual. Por mais que o participante Gerglésio adore a participante Sandriva, ele vai desejar tudo de bom pra ela, menos o primeiro prêmio. Aí a corrente de energia já caiu por terra, percebem?

Digo isso apenas para compartilhar com vocês, meus 400 bilhões de leitores, a minha teoria (nem tão minha assim, hahaha) de que energia é igual virose: é algo que ninguém sabe explicar o que é, mas todo mundo fala sobre com muita propriedade.

É claro que muitos (muitos mesmo, não espero que 400 bilhões concordem comigo, mas se cada um me der um dólar, ah...) vão dizer: "Ah, Luíseeee, energia é tipo amor! Não dá pra explicar com palavras, tem que sentir!". Mas, cara, eu não espalho amor por aí esticando os braços e balançando os dedos. Amor não é tipo um laser que a gente mira e PÁ, acertou, mas a tal da energia as pessoas espalham como se tivessem avançados dispositivos ativados por movimento na ponta dos dedos. Posso torcer muito por você, desejar toda a sorte do mundo, mas transmitir energia? Não trabalhamos.

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Quinta-feira, Setembro 11, 2008

Meu namorado Ninguém

Eu sou a namorada de Ninguém. Estou apaixonada por Ninguém e Ninguém me ama. Ninguém diz que eu sou a mulher da sua vida e que quer casar comigo. Ninguém me liga pra saber se eu cheguei bem, Ninguém me busca em casa. Ninguém briga por minha causa! Ninguém chegou ao ponto de ficar louco por estar longe de mim. Ninguém me ama muito, Ninguém está muito afim. Ninguém faz planos comigo. Ninguém me deu um presente lindo no dia dos Namorados e um mais lindo ainda no meu aniversário. Ninguém conhece os meus pais, a minha casa. Ninguém já viajou comigo. Ninguém me deu um apelido engraçado por causa de uma brincadeira nossa. Ninguém tem ciúmes de mim. Ninguém fica bravo quando eu uso decote. Ninguém diz que eu fico linda naquele vestido azul.

Mas eu vou terminar com Ninguém. É que quando Alguém chegar, eu preciso estar disponível.

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Quinta-feira, Julho 10, 2008

Três Coisinhas

- Bom, alguns podem ter achado o post abaixo meio assustador por causa da história do valão, mas, galera, menas! Se isso não me traumatizou, não vai traumatizar você. E eu também postei essa história por causa dessa coisa toda de inclusão digital, pra rolar toda uma identificação com a galerinha que ainda vê o valão. Já que eu não ganho um centavo com essa porcaria, pelo menos vou agregar um público mais variado pra ler o que eu escrevo, é ou não é?

- Gente, já viram os comerciais da TekPix? Daqui a pouco você não vai precisar dar nem o nome pra comprar a câmera de 12 megapixels que tem todas as funções do Ipod, é MP3 e MP4 (e eu jurando que MP4 era só o MP3+1 coisa, bem, devem ser coisas totalmente diferentes e a burra sou eu) e grava vídeos com a tecnologia da TV digital, além de muitas funções iniciadas com a letra F: filma, fotografa, fuma, fala, fascina e fagocita. Em breve eles vão pedir só pra você se descrever e marcar com eles em algum lugar com o dinheiro que eles entregam a câmera. E o pagamento, bem, fica por sua conta... pode pagar até com migalhas de pão.

- Daí que eu tenho esse blog desde muito tempo e vejo que ele é mó vanguarda, hahaha. De quando eu comecei pra cá, muita coisa mudou - muita mesmo - e olha que eu nem sou tão dinossaura assim. Mas pra mim tá tudo a mesma coisa, continuo sem ganhar um centavo com isso aqui (e não reclamo), não entrei numa de postar coisas interessantes e comentar sobre notícias e tecnologia, continuo no Blogger e, com tantos blogs em 1ª pessoa por aí, penso que meus leitores podem ficar confusos sobre qual é o perfil desse blog ou qual é a minha, sei lá, quando posto aqueles contos sem pé nem cabeça.

Bem, esse blog não tem um perfil, ele só fica bem quando fotografam de frente.

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Quinta-feira, Julho 03, 2008

Lembrança dos meus 6 anos

Nasci numa época em que já não era mais seguro deixar seus filhos de 6 anos irem à escola sozinhos, então meus pais pagavam transporte escolar para os meus irmãos e eu, mas não falo de qualquer transporte escolar, mas do melhor que já existiu.

Era uma Kombi amarela guiada por um cara genial chamado Marcelo, o tio Marcelo, que além de levar crianças pra lá e pra cá, também tinha um bar e um depósito de bebidas. Às vezes, ele ia pegar as bebidas como se fossem crianças e elas iam conosco na parte de trás. Ele, inclusive, era nosso fornecedor semanal de engradados de Coca Cola.

A arrumação dos bancos na parte de trás da Kombi mudava periodicamente. Às vezes era o clássico de três fileiras, às vezes os bancos ficavam um de frente pro outro, proporcionando, no centro, um espaço ideal para que as crianças viajassem de pé, na maior algazarra.

Aliás, viajar sentado naquela Kombi é que era coisa rara. Os meninos sempre com as cabeças do lado de fora da janela, as meninas de joelhos nos bancos, conversando, mas nem havia muito uma separação dos sexos. Normalmente, todos brincávamos juntos e ríamos das mesmas coisas, quase sempre uns dos outros.

Havia, no nosso bairro típico do subúrbio carioca, um valão, que um dia fora um rio, onde os marginais das favelas vizinhas faziam a desova dos cadáveres de seus xisnóves. Quando víamos que o ex-rio estava próximo, implorávamos para que o Tio Marcelo diminuísse a velocidade, para que pudéssemos ver o corpo. Ele diminuía, mas antes fazia uma avaliação superficial do estado da vítima, para que não ficássemos traumatizados. Se o moribundo estivesse detonado demais, ele, para nossa enorme tristeza, acelerava de novo. Se estivesse apenas com alguns buracos discretos no dorso, ele continuava a 10 por hora, para que nossa eterna e voraz curiosidade pude ser saciada.

É claro que ir à escola aos 6 anos é sempre divertido, mas posso garantir que ir e vir naquela Kombi muitas vezes valia o dia. Por mais estressante que fosse nosso dia na escola, tudo era esquecido quando os pés tocavam o chão preto daquela Kombi amarela. Há filhos que chegam da escola desanimados, mas nós chegávamos em casa pegando fogo.

Cantávamos, gritávamos, dançávamos e tudo isso era ótimo, mas o que transformava as viagens na Kombi do tio Marcelo um acontecimento mágico e inesquecível era descer a ladeira do Marinho em alta velocidade.

Deixem-me explicar: havia um menino chamado Mário (assim como meu irmão e, para evitarmos confusão, nós o apelidamos de Marinho) que morava numa casa bem no alto de uma ladeira. Na verdade, para se chegar nessa ladeira, era necessário subir pelo menos outras duas, bem íngremes, mas descia-se por uma só, por ela, a maior e mais radical de todas.

Hoje em dia, se analisarmos friamente, pode-se chegar à conclusão de que o Tio Marcelo era um homem maluco e irresponsável, onde já se viu? Atender ao pedido de crianças inconseqüentes e enfiar o pé no aceledor de uma Kombi velha em uma ladeira íngreme que desembocava numa rua movimentada? Ah, se nossos pais soubessem!

Mas o fato é que perdôo os riscos a que esse motorista nos submeteu pelo simples fato de que descer aquela ladeira daquela maneira proporcionava os momentos mais felizes da minha semana, comparando-se apenas aos momentos em que minha mãe me dava a vasilha suja da massa de bolo pra eu comer com uma colherzinha ou ainda ir à casa da minha avó nos domingos, pra tocar o inferno na casa dela, porque na minha a minha mãe não deixava.

Às vezes o tio Marcelo fazia um charminho, dizendo que ia descer devagar, acredito que só para ouvir nosso coro em uníssono: "Vai rápido, tio Marcelo!", e ficávamos todos de pé, com as mãos bem firmes no teto, só esperando ele ceder aos pedidos. E sempre, sempre cedia. Eu e meus irmãos éramos os primeiros a ser buscados em casa, então estivemos em exatamente todas as vezes em que essa loucura foi executada. Digo isso porque o Marinho começou a utilizar o transporte depois da gente e nós ainda o utilizávamos quando o pior aconteceu.

Um dia, sem mais nem menos, em vez da Kombi amarela nos esperar na porta da escola, havia uma Besta de 16 lugares. Nós não entendemos nada, o tio Marcelo disse que nós podíamos entrar, então entramos. Era espaçosa, mas até demais. As crianças ficaram espalhadas, nem conversamos no caminho. Quem dirigia era outro cara, ao seu lado sua esposa e o tio Marcelo. Viajaram calados a maior parte do tempo, e nós também. Não dava pra reconhecer o cara brincalhão que o tempo todo interagia com a gente naquele dia. O motorista da Besta devia achar que ficaríamos encantados com o tamanho do carro, o conforto, mas só pensávamos em onde estaria a Kombi amarela. "Talvez no conserto", minha mãe sugeriu. Fazia sentido.

Mas nos dias que seguiram, essa Besta insistiu em nos buscar e levar, sempre com o tio Marcelo indo junto de carona. Hoje sei que era apenas para que nós não sentíssemos o baque de uma mudança de carro e motorista. Agora quem faria o transporte seria aquele casal careta e certinho que nem sabia os nossos nomes direito. Eles nos pediam para pôr o cinto de segurança e aceleravam quando o valão dos corpos se aproximava. Desciam as ladeiras devagar e com cuidado e jamais saíam da rota. Não dava nem vontade de brincar com as outras crianças, até porque devíamos manter o volume das conversas baixo. Chegávamos em casa ainda sentindo o cansaço da escola, não tinha mais graça o caminho até ela.

Em agosto nos mudamos de lá, então foram poucos, porém dolorosos, os meses que utilizamos o novo transporte. O tio Marcelo não aparecia mais, nem de carona, então só o víamos quando ela ia levar os refrigerantes em casa. Ele continuava o mesmo cara engraçado de sempre e conversava um bocado com a gente antes de voltar pro caminhão ou para a Kombi, que, quando parava na porta de casa, dava um aperto danado no coração, pois trazia consigo as lembraçnas da adrenalina que ladeira do Marinho dava e que nós nunca mais descemos. Não em alta velocidade.

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